Em meio aos trios elétricos e à modernização da folia, um bloco segue firme há quatro décadas celebrando a memória afetiva do Carnaval de Salvador. O Bloco da Saudade completa 40 anos transformando lembranças em tradição e reafirmando o amor pelo carnaval de rua.
Criado no verão de 1986 por Aniz Palma Cabral e um grupo de amigos do bairro da Saúde, o bloco nasceu como um movimento de resistência cultural. Na época, os trios elétricos dominavam os circuitos oficiais, mas a proposta era outra: resgatar os antigos carnavais, com instrumentos acústicos, marchinhas, samba e sopro, sem cordas ou som mecânico.
Uma paixão que começou na infância
A história do bloco se confunde com a própria trajetória de Aniz. Morador da Saúde, ele se encantou ainda menino ao assistir aos desfiles na Rua Jenipapeiro. Impedido pelos pais de ir até a Avenida, vivia a folia no próprio bairro.
Foi ali que começou a tocar percussão e, aos 10 anos, criou o seu primeiro bloco, o “Filhos da Saúde”. Com instrumentos improvisados — tambores feitos de caixotes de madeira e couro, frigideiras que viravam agogôs — a turma saía pelas ruas arrecadando moedas para tomar guaraná. A paixão pelo Carnaval já estava consolidada.
A criação do Bloco da Saudade
Mais de 30 anos depois dessa primeira experiência, em 1986, veio a ideia que marcaria a história do Carnaval de Salvador. Em uma reunião com amigos, surgiu o Bloco da Saudade, pensado inicialmente para desfilar apenas um dia. O sucesso foi tão grande que o grupo saiu novamente na segunda-feira.
O desfile tinha uma marca registrada: seguir na contramão dos trios elétricos. Quando um trio se aproximava, o bloco parava e depois retomava o cortejo, mantendo a proposta acústica e tradicional.
Desde o início, o grupo chamou atenção da imprensa e chegou a estampar capas de jornais, consolidando-se como símbolo de resistência cultural.
Mudanças e crescimento
Com o passar dos anos, adaptações foram feitas. Inicialmente formado apenas por homens, o bloco passou a aceitar mulheres em 1995. A mudança ampliou o público e impulsionou o crescimento da agremiação.
Outra transformação importante foi na formação musical. Embora mantenha a essência acústica — sem caixas de som ou amplificação — o bloco passou a incorporar bateria à banda, que hoje reúne dezenas de músicos de sopro e percussão.
“Em 40 anos, nunca usamos som mecânico”, reforça Aniz, destacando o compromisso com a tradição.
Reconhecimento e legado
Ao longo da trajetória, o Bloco da Saudade contou com apoio de figuras importantes e recebeu personalidades como Antônio Pitanga, Edil Pacheco e Batatinha, que foi homenageado pelo grupo.
Hoje, aos 72 anos, Aniz segue desfilando com a mesma energia. Para ele, o maior legado do bloco é preservar o “verdadeiro amor pelo Carnaval”.
“Me emociona ver pessoas da melhor idade chorando na avenida ao relembrar as músicas e os antigos carnavais. É isso que queremos manter vivo”, afirma.
Carnaval 2026
Em 2026, o bloco desfila com o tema “O Jubileu de Esmeralda na passarela do samba!”. Serão mais de 1.400 associados acompanhando uma banda formada por 130 músicos.
Confira a programação:
- Sábado (14 de fevereiro): Circuito Osmar (Campo Grande) ao Batatinha (Pelourinho). Concentração às 11h, na Rua Araújo Pinho, Canela.
- Segunda-feira (16 de fevereiro): Circuito Osmar ao Batatinha, com saída na Rua Araújo Pinho, Canela.
- Terça-feira (17 de fevereiro): Santo Antônio Além do Carmo. Concentração às 15h, no Largo do Santo Antônio.
A fantasia custa R$ 430, com pagamento via PIX ou cartão em até cinco vezes.
Quatro décadas depois da estreia, o Bloco da Saudade segue provando que, em Salvador, tradição e emoção continuam desfilando lado a lado.
Foto: Cedoc A TARDE