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Claudia Leitte é processada após trocar orixás por termos cristãos em músicas de axé

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A cantora Claudia Leitte foi processada pelo Ministério Público do Estado da Bahia (MP-BA) e pelo Instituto de Defesa dos Direitos das Religiões Afro-Brasileiras (Idafro) por intolerância religiosa. A ação foi protocolada na 7ª Vara da Fazenda Pública de Salvador e tem como base a alteração reiterada de letras tradicionais do axé, com a substituição de referências a orixás por termos de cunho cristão.

De acordo com a ação, a artista voltou a modificar uma canção ao substituir o nome do orixá Ogum pela palavra “Yeshua”, apenas um dia após o ajuizamento do processo pelo Ministério Público. Para o MP-BA e o Idafro, a atitude demonstra reincidência e desrespeito deliberado às religiões de matriz africana.

Os autores sustentam que a conduta reforça um padrão de esvaziamento simbólico de elementos centrais da cultura afro-brasileira, especialmente em músicas que fazem parte da memória coletiva, da identidade cultural baiana e da própria história do axé music.

Pedido de retratação e proibição de novas mudanças

Na ação, o MP-BA e o Idafro pedem que Claudia Leitte faça retratação pública e seja obrigada a se abster de praticar qualquer ato de discriminação religiosa, direta ou indireta, em shows, entrevistas, produções artísticas ou redes sociais. O pedido inclui, de forma específica, a proibição de supressão, alteração ou desvalorização de referências religiosas de matriz africana.

O Idafro afirma que as mudanças não podem ser tratadas como exercício de liberdade artística ou religiosa, já que envolvem músicas reproduzidas há décadas e reconhecidas como bens culturais imateriais. Segundo a entidade, a alteração teria um único propósito: “ultrajar e vilipendiar a memória africana expressa na religiosidade afro-brasileira”, promovendo a descaracterização sistemática do patrimônio cultural.

Axé, ancestralidade e proteção legal

Na petição apresentada à Justiça, o Idafro destaca que o axé music é um gênero diretamente ligado às religiões de matriz africana e à ancestralidade, e que Claudia Leitte construiu sua carreira e patrimônio artístico nesse contexto cultural, sem nunca ter migrado formalmente para o segmento gospel.

A ação também lembra que as religiões afro-brasileiras são reconhecidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) como patrimônio cultural imaterial, merecendo proteção específica do Estado por serem historicamente alvo de estigmatização e preconceito.

Além disso, o Estatuto da Igualdade Racial e a Lei da Ação Civil Pública preveem a tutela da honra e da dignidade de grupos religiosos — direitos que, segundo o MP-BA e o Idafro, foram violados pelas condutas atribuídas à cantora.

Liberdade religiosa em debate

Claudia Leitte já declarou anteriormente que as mudanças nas letras estariam relacionadas à sua liberdade de crença. Para o Ministério Público e o Idafro, no entanto, o direito individual à fé não autoriza a supressão ou descaracterização de símbolos religiosos de uma coletividade historicamente vulnerabilizada, especialmente quando esses símbolos integram o patrimônio cultural brasileiro.

O processo pede ainda antecipação de tutela, diante da continuidade das alterações mesmo após a judicialização do caso.

 Foto: Raphael Muller | Ag. A TARDE

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