O Pelourinho amanheceu vermelho nesta quinta-feira (4) com a tradicional Festa de Santa Bárbara, que reuniu centenas de fiéis e abriu oficialmente o calendário de festas populares de Salvador. A celebração, marcada pela mistura entre fé católica, cultura afro-brasileira e expressões artísticas, mais uma vez tomou o Centro Histórico em um dos eventos mais simbólicos da capital baiana.
Como tradição, devotos participaram de missas, cortejos e apresentações culturais ao longo do dia. Para o padre Lázaro, da Igreja do Rosário dos Pretos, a data reforça a diversidade religiosa e a energia singular da cidade.
“Estamos numa cidade marcada pelo samba, pela alegria, pelo axé. Tivemos o Dia do Samba, agora Santa Bárbara abre as festas, e logo chega o Carnaval”, disse ao Portal A TARDE. “Precisamos valorizar as diferentes culturas — africana, católica, cristã — cada uma trazendo seus elementos. Que a festa siga crescendo e reunindo mais devotos.”
Sincretismo que fortalece tradições
Além da devoção católica, o dia 4 de dezembro também celebra Iansã, orixá dos ventos e tempestades. A presença do sincretismo religioso é um dos elementos mais fortes da festa.
A trancista e turbanista Negra Jhô destacou a importância da ancestralidade para manter vivas as tradições baianas.
“A importância dessa festa é manter nossos valores e nossa união. O vento é para todos. Iansã, ou Santa Bárbara, é só agradecimento. O acarajé está na mesa de todo mundo, independente da religião”, afirmou.
Patrimônio imaterial e atração turística
O secretário estadual de Cultura, Bruno Monteiro, reforçou que a celebração é um símbolo da identidade baiana e um patrimônio imaterial que precisa ser preservado.
“O 4 de dezembro representa a força da nossa cultura. A Bahia se veste de vermelho em uma celebração que une fé e devoção a Santa Bárbara e Iansã. Cabe ao Governo do Estado manter viva essa tradição”, destacou.
Monteiro também observou que as festas populares têm atraído cada vez mais visitantes. “Antes, o turismo era concentrado no Carnaval, mas isso vem mudando. Festas como Iemanjá, Bonfim e agora Santa Bárbara têm ampliado o fluxo de turistas, o que só fortalece nossa cultura.”
Fé que transforma vidas
Entre os fiéis, histórias de devoção e superação se misturam às homenagens. A ganhadeira de Itapuã, Tereza Conceição Santos, 73, participa da festa desde que começou a trabalhar como baiana de acarajé.
“Minha relação com Iansã é fortíssima. Desde que comecei a vender acarajé, nunca mais deixei de vir. A vida da mulher que é de Iansã e vive do acarajé só não prospera se ela não quiser”, diz com orgulho.
Dona Tereza conta que conquistou grandes objetivos graças à fé e ao trabalho: formou o filho, construiu a própria casa e já chegou a ganhar um carro zero após participar de um sorteio na festa do ano 2000 — ano em que confeccionou uma saia e uma toalha especial em homenagem à orixá.
“Eu não tenho nada para reclamar, só agradecer. Minha Iansã sempre me deu coragem.”
Com força espiritual, cultura e tradição, a Festa de Santa Bárbara segue reafirmando seu papel como marco da baianidade e ponto de partida para a temporada de celebrações que tomam Salvador até o Carnaval.
– Foto: Shirley Stolze/Ag A TARDE