Grandes redes de supermercados no Brasil começaram a adotar o fim da escala 6×1 mesmo antes de o tema ser votado no Congresso Nacional. A mudança para o modelo 5×2, mantendo as 44 horas semanais e sem redução salarial, já apresenta reflexos diretos na atração e retenção de funcionários.
Empresas do varejo relatam aumento no interesse por vagas, queda nas faltas, menos afastamentos por doença e redução nos pedidos de demissão. Por outro lado, setores mais críticos alertam que a alteração na legislação pode impactar a produtividade e elevar custos trabalhistas.
Um dos exemplos é o Grupo Savegnago, que encerrou oficialmente a escala 6×1 em fevereiro. Com 14 mil funcionários, 64 supermercados e nove unidades do Paulistão Atacadista no interior paulista, a rede já vinha testando o novo modelo desde novembro. Segundo o gerente de Recursos Humanos, Michel Campos, a escala 5×2 trouxe mais equilíbrio entre vida pessoal e profissional sem comprometer a operação.
Para manter as 44 horas semanais, a empresa ajustou a jornada diária de 7h20 para 8h48, evitando a necessidade de novas contratações. A decisão foi tomada após dificuldades para preencher vagas — um problema que, segundo a Associação Brasileira de Supermercados (Abras), atingia cerca de 350 mil postos no setor no ano passado.
A rede Pague Menos, com 40 lojas no interior paulista e 8 mil funcionários, também adotou a escala 5×2 em definitivo em janeiro, destacando como principal motivo a atração e retenção de colaboradores. Desde então, houve queda nas faltas e nos pedidos de desligamento.
Outras empresas também já testam modelos alternativos de jornada. A MOL Impacto implementou a escala 4×3 sem redução salarial, enquanto o hotel de luxo Palácio Tangará, no Morumbi, foi pioneiro em São Paulo ao oferecer a escala 5×2.
Estudos apontam impactos financeiros e no mercado de trabalho. Pesquisa do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indica que a redução da jornada pode elevar o custo do trabalhador formal entre 7,8% e 17,5%, dependendo do tamanho da mudança. Embora o governo defenda a redução de 44 para 36 horas semanais, a expectativa é que a proposta avance para 40 horas.
O Ipea avalia que o desemprego médio não deve sofrer aumento relevante, citando reajustes históricos do salário mínimo que não resultaram em perda significativa de vagas. Já o Centro de Liderança Pública (CLP), ao adaptar estudo realizado em Portugal, projeta queda de 0,7% na produtividade por trabalhador e redução de 1,1% no emprego formal, o que poderia representar corte de até 638 mil postos.
No Congresso, o debate avança. O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), afirmou que pretende votar até maio o fim da escala 6×1. A proposta pode tramitar a partir de projeto apresentado pelos deputados Erika Hilton (PSOL-SP) e Reginaldo Lopes (PT-MG), mesmo com uma Proposta de Emenda à Constituição já aprovada no Senado.
Foto: Paulo Pinto | Agência Brasil