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Cultura

Cinema brasileiro amplia parcerias internacionais após destaque no Oscar e em Cannes

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Coproduções com outros países ganham espaço entre produtoras nacionais após repercussão de “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto”

Após uma sequência de conquistas que ampliou a visibilidade do Brasil no circuito internacional, o cinema nacional começa a fortalecer uma nova frente: as coproduções com outros países. Uma análise publicada pela revista norte-americana Variety aponta que produtores brasileiros estão cada vez mais envolvidos em projetos realizados em parceria com mercados da América Latina, Europa e outras regiões.

O movimento acontece na esteira da repercussão internacional recente de produções brasileiras. Em 2025, “Ainda Estou Aqui”, dirigido por Walter Salles, conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional. Na sequência, “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, ampliou a projeção do país ao conquistar dois prêmios no Festival de Cannes e, posteriormente, receber cinco indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme.

Depois desses resultados, aumentou a atenção do mercado internacional sobre os próximos projetos ligados ao Brasil. Em 2026, embora nenhum longa predominantemente brasileiro tenha integrado as principais competições dos festivais de Cannes, Berlim ou Veneza, produtoras nacionais continuaram presentes no circuito por meio de parcerias internacionais.

Um dos exemplos citados pela Variety é “Paper Tiger”, dirigido pelo norte-americano James Gray e produzido pela brasileira RT Features, de Rodrigo Teixeira. O projeto, entretanto, é majoritariamente falado em inglês e conta com direção e elenco estrangeiros.

Brasil ganha espaço nas coproduções

A participação brasileira também aparece em títulos como “Elephants in the Fog”, de Abinash Bikram Shah; “Narciso”, de Marcelo Martinessi; “Glaxo”, de Benjamin Naishtat; “Back to Buenos Aires”, de Marco Becchis; “La Perra”, de Dominga Sotomayor; e “Six Months in a Pink and Blue Building”, de Bruno Santamaría Razo.

O avanço desse modelo levou o Festival do Rio a preparar uma mostra dedicada à participação do Brasil em produções internacionais.

Em entrevista à Variety, a diretora do festival, Ilda Santiago, destacou como o modelo de produção cinematográfica mudou nas últimas décadas. Se anteriormente era comum encontrar filmes realizados por apenas um ou dois países, atualmente projetos podem reunir produtores de quatro ou mais nações.

A presença de brasileiros em produções realizadas em parceria até mesmo com mercados como Nepal e Finlândia, segundo Santiago, ajuda a demonstrar o alcance conquistado pelos profissionais e empresas do país.

O momento também reacende a discussão sobre o peso econômico do audiovisual brasileiro. Estudo da Oxford Economics encomendado pela Motion Picture Association apontou que o setor era responsável por mais de 600 mil empregos diretos e indiretos no Brasil.

Financiamento público impulsiona parcerias

Para a produtora Cibele Amaral, da 34 Filmes, que participou da coprodução ítalo-brasileira “Back to Buenos Aires”, trabalhar com empresas estrangeiras permite ampliar tanto as possibilidades de financiamento quanto a circulação internacional das obras.

Parte desse crescimento também é atribuída às políticas públicas destinadas ao audiovisual, incluindo acordos internacionais de coprodução, iniciativas de intercâmbio e editais do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA).

Amaral, porém, aponta a descontinuidade dessas políticas como um dos desafios enfrentados pelo setor. Segundo a produtora, a falta de regularidade de editais específicos para coproduções pode reduzir a competitividade brasileira diante de outros mercados.

Entre os fatores que tornam o Brasil atraente para parceiros internacionais estão os custos de produção, a disponibilidade de profissionais especializados, incentivos fiscais existentes em alguns estados e a maior repercussão internacional das produções nacionais.

Pedidos de coprodução mais que dobram

Dados apresentados pelo produtor Patrick de Jongh ajudam a dimensionar o avanço. Entre 2015 e 2024, o Brasil participou de 242 coproduções internacionais, o equivalente a 10,4% dos filmes brasileiros realizados no período.

O número de pedidos oficiais de coprodução também cresceu de forma expressiva: passou de 56 em 2023 para 140 em 2025, alta de aproximadamente 150%.

Na avaliação de De Jongh, os números indicam também uma transformação na maneira como o Brasil é percebido internacionalmente. Além de servir como locação para produções estrangeiras, o país passa a ocupar espaço como parceiro com capacidade técnica e contribuição cultural para os projetos.

Portugal, França e Argentina aparecem historicamente entre os principais parceiros do Brasil. Rachel Daisy Ellies, da Desvia Filmes, também destaca a experiência acumulada em projetos que aproximam produtores brasileiros de outros países latino-americanos e europeus.

A tendência, segundo a análise da Variety, é acompanhada pelo fortalecimento de uma nova geração de produtores brasileiros interessados em construir pontes com o mercado estrangeiro, alcançar grandes festivais e ampliar a circulação internacional das produções.

O cenário indica que, após a projeção conquistada recentemente por filmes brasileiros, a próxima etapa de expansão do audiovisual nacional pode passar cada vez mais por projetos construídos além das fronteiras do país.

Foto: Divulgação

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